Artigo do Dia
A loucura do mercado: fazer carreira
Existe, hoje em dia, um conceito muito forte, quase dogmático, segundo o qual, fazer carreira é conquistar ascensão hierárquica e ganhar dinheiro, ou seja, ter poder e um bom salário. E melhor ainda se for conseguido em grandes empresas. É o que tem feito a cabeça de uma grande parte dos profissionais, para os quais isto acabou se transformando em meta e objetivo de vida. Esta busca desenfreada por cargos e salários acaba se transformando em um processo angustiante e enlouquecido, pois as chances de conquista de uma destas raras oportunidades dependem muito mais das avaliações subjetivas de recrutadores do que das reais competências dos candidatos. Os recrutadores, por sua vez, com medo de errar na avaliação, procuram escolher candidatos com currículo recheado de siglas e títulos acadêmicos e profissionais, e acabam por criar uma verdadeira ditadura de padrões de requisitos. Nela, o perfil adequado para uma carreira de sucesso exige, por um lado, um candidato jovem, com muito tempo nos bancos escolares e MBA, dominando pelo menos dois idiomas, e, paradoxalmente, com muita experiência e tempo de trabalho para poder apresentar realizações, competências, habilidade para trabalhar em equipe, boa facilidade de comunicação,etc … Difícil. Os limites de idade são ainda mais paradoxais. Quando a empresa busca um “jovem experiente”, por exemplo, ela está esquecendo que só o tempo e a vivência trazem experiência.
Será isso mesmo?… Será mesmo que é imprescindível reunir todos estes cursos e títulos para alçar vôos mais altos?. Tem que ser jovem? Provavelmente, não.
Estatísticas mundiais apontam que 85% dos profissionais contratados por empresas não são selecionados por meio de anúncios abertos ou empresas de recrutamento. São escolhidos por meio de indicações, por aval de conhecidos. Isto é mais forte ainda no Brasil, onde 98% das empresas são micro ou pequenas (até 50 funcionários) que fazem 100% das contratações por indicações, pois nem possuem RH ou serviço de recrutamento e seleção.
É preciso modificar este paradigma atual de carreira. Ele cria angústia nos mais jovens e desespero nos mais velhos. No afã de conseguir o tal sucesso na carreira os profissionais acabam agindo impensadamente, na base do “o-que-der-deu”. Um exemplo claro disto são os programas de trainees. Os “jovens formandos” se inscrevem em todas as oportunidades, nos mais diversos setores, nas mais diversas empresas e funções, e vão trabalhar na primeira que os escolhem, pouco importa. Isto é um contra-senso, uma pessoa não pode ter preferências, competências e dons naturais para áreas e tarefas tão distintas. Ele com certeza não poderá ser eficaz e competente em todas. Isto é como escolher a viagem de férias, indo a rodoviária e pegando o primeiro ônibus que passar… não importando o destino…. Ninguém faria isto, mas estão fazendo com a carreira. A situação é ainda pior quando as pessoas ficam desempregadas. Neste momento, para melhorar o CV, a pessoa aplica todo seu tempo e o pouco de recurso disponível nos cursos da moda, desde informática, idiomas, até oratória, sem ao menos refletir se de fato tem vocação ou se algumas destas opções podem facilitar sua evolução na carreira. Não adianta fazer um curso daquilo que você não gosta. Pouco ou nada vai mudar com aulas para aprender a falar em público se você é tímido, ou cursos de liderança se você prefere trabalhar sozinho. É preciso ter foco. Cursos e treinamentos são válidos quando estão diretamente relacionados com o projeto, e ampliam as preferências e competências.
As pessoas não se dão conta da confusão que fazem entre o objetivo e os meios para consegui-lo. A carreira é apenas um meio, um caminho para chegar ao sucesso (ganhar dinheiro, ou poder ou…seja lá o que sucesso signifique para o profissional…) e não o destino, o objetivo. E, o pior de tudo é que, caso o objetivo seja ganhar muito dinheiro, provavelmente o caminho para chegar lá não deveria ser o emprego assalariado. Menos de 2% dos empregados ganham salários superiores a 20 salários mínimos e, na verdade, os “muito ricos” no Brasil, e no mundo, representam menos de 1% da população e destes apenas 8 % trabalham como empregado. Os outros 92% dos “milionários” tem outra forma de ganhar a vida que não seja vendendo a disponibilidade e seu tempo.
Se fizermos um levantamento entre os profissionais de sucesso, tanto empresários como executivos, vamos constatar que existe muito poucos entre eles cheios de MBAs, PHDs, e que tenham sido tão precoces. Estes líderes são, normalmente, pessoas que dedicaram muito mais tempo ao desenvolvimento de seus projetos ou às suas empresas e que não “tiveram muito tempo para fazer cursos”. E mesmo poucos falam outras línguas fluentemente. Conquistaram o sucesso, trabalhando muito, valendo-se de outros diferenciais e competências. Na grande maioria das vezes, a razão deste sucesso é ter tido um projeto de vida muito claro e coerente com suas características, seus dons naturais, ou seja, trabalhando fazendo aquilo que mais gostam de fazer e, o que mais sabem fazer.
Por isso, antes de se apresentar ao mercado de trabalho ou assumir sua veia empreendedora defina claramente seu projeto de vida. Qual é seu objetivo?, você quer Poder, Dinheiro, Status, Qualidade de vida? Enfim, defina. Cursos ajudam, é verdade, desde que estejam em sintonia com suas aspirações profissionais. Só assim, com muito foco, o profissional conseguirá ir além dos paradigmas do mercado e provar que o conceito de carreira é pessoal e intransferível. Escolha seu alvo e faça acontecer.
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