Artigo do Dia

O que vem pela frente?

Parece que o fim da era de bonança começa a aparecer. Primeiro a crise dos créditos fáceis nos Estados Unidos. Agora, o novo choque do petróleo. O preço do petróleo bateu mais um recorde. Na Bolsa Mercantil de Nova York, o contrato para janeiro de 2008 foi vendido a US$ 98,03, alta de mais US$ 3,39. Já na Bolsa de Londres, o Brent para janeiro foi negociado a US$ 95,49, alta de US$ 3,21. Há menos de seis anos atrás, um barril de petróleo podia ser comprado por no máximo US$ 20. Um aumento de quase 400% nesses cinco anos. Até quando a economia mundial agüenta esta alta? Um petróleo ao preço atual, sem dúvida, vai ajudar a provocar uma nova recessão.
O preço do petróleo tem um lugar especial no mundo econômico. As mais danosas recessões mundiais, em décadas recentes, foram precedidas por grandes altas; em 1973 e em 1979, resultantes da atuação da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep). Iniciou-se, então, o período de maiores mudanças ocorridas em prazos tão curtos. Começou lá, mas ainda estamos assistindo o período mais revolucionário desses tempos de grandes mudanças. Não apenas na sociedade, mas também e principalmente nas Organizações. Gente que, quando nasceu, nem rádio tinha, assistiu, ao vivo, a guerra do Golfo, o 11 de setembro, a invasão do Iraque, fala no celular, tem e-mail, invade e é invadido em sua privacidade, acessa o mundo via Internet, e é afogado por milhões de notícias e informações. Grande parte da sociedade economicamente relevante está totalmente integrada, e isto está revolucionando a forma de fazer negócios e a economia mundial.
Tudo começou com o encarecimento dos preços da energia, e, as empresas se viram fragilizadas na estrutura de seus custos. Para se manterem no mercado, racionalizaram a produção, implantaram programas de redução de custos e dos efetivos. Para se fortalecerem começaram a buscar foco e concentração nas atividades mais promissoras e lucrativas e se desfizeram de atividades pouco rentáveis e, também partiram para a conquista de novos mercados, em novas fronteiras. No início dos anos 80, milhares de empresas desapareceram pura e simplesmente, e as reestruturações foram feitas por reagrupamento e fusão de empresas o que acabou gerando grandes grupos, líderes de mercado. A partir daí, a concorrência se aguçou e alguns dos grandes símbolos empresariais começaram a desmoronar. Foi o início da concentração na indústria, no comércio, nas finanças. O mercado se globalizou e a concorrência se estabeleceu além das fronteiras. As relações comerciais internacionais explodiram, crescendo com taxas superiores a 10% ao ano.
Desde então, aumentos do petróleo provocam temor de redução do crescimento. As empresas que usam petróleo ficam sujeitas a custos mais elevados que, se não puderem ser repassados através de aumentos nos preços, podem fazer com que parte da produção torne-se não lucrativa. Os consumidores, ao pagar mais por seu petróleo, seu transporte, seu aquecimento, seus produtos plásticos e embalagens, vêem sobrar menos dinheiro para gastar em outras coisas. E, se estes custos forem repassados, a inflação volta. O preço do petróleo afeta não só o custo da energia, altera a matriz de transportes, mexe na cadeia química, farmacêutica, nas embalagens, quase tudo, enfim.
Porque então a recessão não parece ter começado ainda? Dois novos estudos de três economistas - um de Olivier Blanchard e Jordi Galí; outro de William Nordhaus - propõem-se a explicar as razões. Eles chegaram a conclusões similares: os choques já não são tão prejudiciais porque o consumo de petróleo é menor do que no passado, porque a economia é mais flexível e porque os bancos centrais são mais eficazes no controle da inflação. Os países ricos consomem menos da metade do petróleo que usavam em 1970 para cada dólar (ajustado pela inflação) de Produto Interno Bruto (PIB). Assim, embora os preços, em termos reais, tenham voltado a níveis da década de 70, seu impacto não é tão violento. Um impacto adverso mais amplo no mercado de trabalho e na produção depende de em que medida esses custos mais altos sejam absorvidos. Se os trabalhadores insistirem em aumentos salariais reais para conservar seu poder de compra, os custos das empresas sofrerão um impacto adicional, resultando em demissões, maior desemprego e demanda reprimida. Na medida em que os trabalhadores absorverem o impacto, aceitando o encarecimento do petróleo reduzindo, assim, seu salário líqüido -, o dano colateral será menor. A rigidez das economias na década de 70 - quando o poder dos sindicatos e os contratos de trabalho indexados implicavam salários “imexíveis” - apenas multiplicava os efeitos adversos dos choques do petróleo. Os atuais mercados de trabalho flexíveis permitem que os choques do petróleo sejam absorvidos com menores conseqüências nefastas.
Mas, em menor ou maior grau, um novo modelo econômico e um novo pacto social estão por vir. É bom preparar-se, antecipar mudanças, alterar leis ultrapassadas, reduzir carga tributária para devolver poder de compra, recriar uma infra-estrutura, já baseada em novas formas e modelos. Enfim, quem ficar parado vai pagar caro, de novo.



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