E o FED copiou o nosso PROER
por Fernando Blanco
Na metade dos anos 90, uma série de bancos de grande e médio porte do Brasil quebrariam se o governo não tivesse criado um programa de recuperação de bancos com problema de liquidez, mais conhecido como PROER. Em síntese, o banco “doente em estado terminal” era repassado para um outro com bom estado de saúde. Exemplos notórios foram: Unibanco resgatando o Nacional e o HSBC resgatando o Bamerindus.
Foi praticamente isso que o FED fez com o Bear Sterns. O FED, que já devia ter injetado recursos no banco para mantê-lo “respirando artificialmente”, negociou a aquisição do mesmo pelo sólido J.P.Morgan. Desta forma, ficaram preservados todos os depositantes do antigo Bear Sterns, evitando outros colapsos em cadeia que certamente ateariam ainda mais fogo no já suficientemente conturbado mercado internacional.
Por que um banco quebra, mesmo sem quebrar?
O evento do desaparecimento do Bear Sterns, 5º maior banco de investimento americano, absorvido pelo J.P.Morgan, traz de volta uma antiga máxima do mercado: bancos não quebram por conta de prejuízos, mas sim por falta de liquidez. Parece óbvio, mas não é. Um banco pode ter um prejuízo muito maior do que outro, mas nessa hora o que vale é a percepção dos depositantes (sejam eles pessoas físicas, fundos, ou outros bancos).
No caso específico dos bancos envolvidos na crise do subprime americano, o fundamental não é “quanto perderam”, mas sim “quanto ainda tem a perder”, i.e. pura gestão de expectativa. É assim. Os agentes econômicos que acreditam que um determinado banco já lançou a prejuízo todas as perdas incorridas, ganham confiança e mantém seus depósitos no dito banco. Por outro lado se acharem que além das perdas já divulgadas ainda há mais, aí ocorre a chamada fuga de depósitos, onde quem tem e pode, saca o máximo possível. Não há banco que resista sem a ajuda do seu banco central.
Atenção executivos e empresários de organizações não financeiras: a mesmíssima coisa acontece com empresas. Nenhuma quebra pelo prejuízo em si, mas por conta da falta de liquidez, seja do fornecedores ou banqueiros. É por isso que se teme a universalização da crise americana.
Contribuição para o blog de Fernando Blanco: Presidente da Coface Brasil. Formado em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas. Mestrado em International Banking & Financial Studies na Heriot-Watt University (Edinburgh/Escócia). 24 anos de carreira, atuando em grandes corporações multinacionais no mercado financeiro: Barclays Bank - Credit Manager, ING – Diretor de Crédito & Risk Management, e Clientes Corporate, ABN AMRO – Diretor Executivo de Corporate e Middle Market.
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